segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Engano

A pior hora para ser acordado é mais ou menos uma hora após o começo do sono. O corpo já está entrando em um relaxamento total. Já sabe que não é um simples cochilo. Foi nesse momento que Mariana foi acordada naquele domingo sem graça. Já tinha deitado há algum tempo e entrava na gostosa parte do sono profundo quando o celular tocou, deixando-a desnorteada.

Ela demorou alguns segundos para entender que ruído era aquele e mais uns tantos outros para tateando achar o celular na bagunça de seu criado-mudo. Abriu um olho e tentou enxergar o número que estava ligando. Não estava em sua agenda mas era levemente familiar. Balbuciou um alô e ouviu uma voz animada mas que de imediato não reconheceu:

- Mariana, meu amor!
- Quem é?
- Sou eu, Felipe, está lembrando não?
- Mais ou menos, o que você quer?
- Minha gostosa, me diga onde você está e eu vou aí te ver agora.
- Você está louco ou isso é um engano.
- Como assim engano, minha paixão? Deixe de ser má, me fale logo onde você está e vamos nos encontrar bem gostoso.
- Oras, engano engano... Você pretendia ligar para uma outra Mariana, porque eu não faço idéia de quem você seja.
- Não pode ser engano se o seu nome está aqui no meu celular.
- Mas é, eu não sou essa Mariana que é seu amor, sua gostosa ou sei lá o quê. Você ligou para a Mariana errada.
- Então prove que você não é a minha Mariana.
- Eu não tenho que provar nada, você é um doente, vá se tratar e pare de ligar para as pessoas a essa hora da noite, seu tarado juvenil.
- Ahá! Olha a prova que você sabe quem sou eu.
- O quê?
- Você me chamou de tarado juvenil, então me conhece, porque eu sou tarado e sou novo, um tarado juvenil.

Com um suspiro e lembrando quem era esse Felipe, Mariana respirou fundo e com uma voz ameaçadoramente baixa, disse:
- Olha, não é preciso ser um gênio para deduzir que você é um tarado juvenil. Você me liga super tarde, me chamando de paixão, querendo fazer gostoso comigo, com uma voz alterada, arfando... Só poderia ser tarado.
- Mas você também disse juvenil, como explica isso?
- Muito mais simples ainda, sua atitude é típica de adolescente, nenhum homem se comportaria assim. Além do mais, agora nos últimos minutos, eu estou relembrando de você.
- Não disse? Você estava aqui na minha listinha especial. Eu só não lembro onde você mora, me diga e eu vou te buscar.
- Felipe, eu não estou na sua listinha especial, o contato que eu tive com você foi outro. Seu pai me comprou um filhote de cachorro, algo estritamente comercial. Lembra agora que Mariana sou eu?
- Lembrei! Mas eu não lembro mesmo onde é a sua casa, explica para mim e vamos juntinhos dar umas risadas do meu engano.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Passado sexual

Tentava a todo custo não se deixar influenciar por sua melhor amiga. Mas quase sempre era em vão. Tudo o que Sandrinha mandava, Telma fazia. Foi assim que começou uma das mais estapafúrdias idéias da Sandrinha sobre relacionamentos, dizendo que os parceiros deveriam saber tudo da vida um do outro, inclusive com quantas pessoas cada um já tinha feito sexo.

Pensativa, a influenciável Telminha foi para casa. Definitivamente não ia se deixar levar pelas insensatas idéias da amiga. O que poderia acrescentar em uma relação saber do passado sexual do outro? Nada, nada mesmo. Dessa vez ela ia se comportar como uma adulta e esquecer tudo o que ouviu. Resoluta, ela foi se arrumar para encontrar o seu amor.

Cinema. Massa. Sobremesa no apartamento de Miguel. Lá tinham mais privacidade. Observador, ele a tinha notado meio distante, até um pouco taciturna. Mas sabia como ela poderia ser infantil às vezes e decidiu não tocar no assunto.

Percebendo que ele não ia comentar nada, Telma resolveu desabafar.
- Querido, não sei se você percebeu, mas eu passei a noite inteira meio encucada com algo.
- Com o quê? Estamos tão bem, você é a mulher da minha vida, o meu amor, eu quero passar o resto da vida com você. Só temos coisas boas para enumerar.
- Mas eu preciso fazer uma pergunta para você e é muito importante que seja sincero.
- Certo, qual a pergunta?
- Eu quero, não, eu preciso saber com quantas mulheres você já dormiu – falou olhando bem nos olhos dele – só assim poderemos dar um passo a frente no nosso relacionamento.

Miguel suspirou e mentalmente contou até 10. Sempre se surpreendia com Telma. Já tinha pensado mil vezes em deixá-la. O problema é que a amava muito e nunca conseguiu ir adiante. Mas era muito desolador esperar toda semana por mais uma das loucuras dela e a cada dia tinha menos paciência.

- Não vejo em que isso interfere ou possa vir a interferir na nossa vida, meu bem.
- Mas eu vejo, Miguel. Não me enrole, é uma pergunta muito simples, eu não quero os detalhes ou os nomes, eu só quero o número. Se você quiser pode até escrever em um pedaço de papel e me entregar. Um simples número, se você me ama tanto quanto diz, isso não é nada. É uma ínfima prova de amor.
- Meu Deus! Agora virou prova de amor? Eu estou ficando cheio das suas insanidades e não vou arriscar a perdermos tudo o que temos.
- Vai perder se não responder.
- Você está me ameaçando? Chantageando? O que está acontecendo? E se eu não estiver dentro do seu parâmetro? E se você achar que tive poucas ou muitas?
- Eu só quero saber, o número não vai influenciar em nada.
- Então você não precisa saber de nada, deixe disso e deite aqui no sofá comigo, vem...
- Não, eu quero saber. Não quero homem gasto. Você deve ter algo a esconder se não quer responder.
- Não tenho nada a esconder, é só algo íntimo e que não vem ao caso. Sexo não gasta, isso não existe.
- Gasta e desgasta. Eu não quero mais saber de você.
Telma foi embora deixando um Miguel boquiaberto. Ele sabia que ela voltaria, talvez até mesmo no dia seguinte. Entretanto sabia que passaria a noite angustiada, fazendo milhões de falsas associações, imaginando coisas que não existiam e, principalmente, que ao menos nesta noite ficariam sem o bom, mesmo que desgastado, sexo deles.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Língua de lixa

Com sua mania de analisar ambientes e situações, Mônica de imediato percebeu o tímido rapaz, de sorriso sem jeito, escondido pelos cantos do pub. Alto, magro, ombros largos e com lindos olhos verdes. Era, sem dúvidas, o homem mais bonito da noite e estava sozinho. Sem acreditar na própria sorte, ela foi em busca de sua melhor amiga, para colher mais informações e juntas traçarem a estratégia da investida.

- Lu, acabei de ver uma obra prima, pertinho do banheiro, venha comigo, quero que você o veja também e me assessore – disse aos berros enquanto puxava a amiga pelo braço.
- Qual deles é?
- Aquele ali, de camiseta verde, está vendo? Você o conhece?
- Conheço – confirmou sem entusiasmo a amiga – é o Gabriel língua de lixa.
- O quê? Conte isso direito, não me mate de angústia.

Revirando os olhos, Luciana contou detalhadamente que Gabriel era conhecido por ter uma língua grudenta e áspera. Fato esse provado e comprovado por todas que ele já tinha beijado.
- E olhe que foram muitas, a notícia da incomum língua de lixa correu a cidade e todas queriam testar.
- Todas queriam? Por quê? É gostoso o beijo? Afinal é uma língua especial, essa língua de lixa, deve fazer coisas maravilhosas – falou uma novamente animada Mônica, enfatizando bem o maravilhosas.
- Dizem que é nauseante o beijo. Não sei assim outras coisas, aparentemente ninguém avançou o sinal com ele.
- Luciana, me conte direito. O que tem de ruim em um beijo com língua de lixa, por que falam tão mal dele?
- Ah, Mônica, eu não sei, eu não o beijei, mas todo mundo que beijou odiou. Se você está tão curiosa, vá lá e o beije, tire logo essa dúvida, vá sentir aquela língua áspera e pegajosa grudando na sua.
- Calma, calma, não precisa se exaltar. Eu já acreditei que seja ruim esse beijo do língua de lixa, não quero mais experimentar não. Mas ele é tão lindo que eu estou pensando, será que se eu falar com jeitinho, ele se incomoda de pularmos os beijos e eu testar essa língua em outras partes?